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    A nova área indicada para desapropriação a partir de 30.01.2006, no entorno de Viracopos, em virtude da ampliação aeroportuária, é predominantemente rural, embora se estenda também por zona urbana.
    Buscando trazer maiores esclarecimentos à população campineira e a quem mais busque essa informação para compreender o que ocorre em Campinas a respeito da ampliação de Viracopos, com relação à população que habita e vive do lugar, pode-se constatar que, em parte dessa área rural, situado a Oeste, encontra-se o Bairro Friburgo, que reúne a comunidade de imigrantes alemães e seus descendentes, cujos primeiros representantes, cerca de 34 famílias, chegaram ao Brasil por volta de 1854. Com união e trabalho foram adquirindo as terras que consolidam hoje o referido bairro.
    Como sede do núcleo que se formava ainda no século XIX, foi construído, em 1879, o prédio da Sociedade Escolar do Bairro Friburgo, entidade que se dedica atualmente à cultura, folclore e tradições alemãs. Desde aquele século o prédio da escola é o centro das atividades sociais da comunidade friburguense. Com o crescimento da população e também com a crise da cafeicultura, cultura básica da área, muitas famílias mudam-se para as cidades próximas mas continuam a manter o hábito de voltar ao bairro todos os finais de semana para assistir aos cultos na Igreja Evangélica de Confissão Luterana, fundada em 1933, e homenagear seus mortos na Associação Funerária do Friburgo, fundada em 1887.
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 Jornal Correio Popular de 17/10/2004
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    As famílias friburguenses se reúnem também no bairro nos finais de semana para participar dos bailes, festas, almoços e jogos promovidos pela comunidade. A Sociedade Escolar do Bairro Friburgo realiza as festas típicas alemãs com a participação dos grupos de dança folclórica (figura abaixo, nesta página) não só na própria comunidade mas, também, nos municípios próximos, difundindo a cultura germânica em Campinas e região (Foto abaixo).
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 Flâmula do Grupo de Dança Folclórica Alemã do Bairro Friburgo – Tanzgruppe Friedburg
 Tanzgruppe Friedburg – Foto cedida por friburguenses
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    Como se pode constatar, as raízes dessa comunidade alemã no Bairro Friburgo têm dimensões muito além de seculares. Sua identidade se construiu e se consolidou no lugar, ao longo desses mais de 150 anos, e aí, não em qualquer outro lugar, é que ela se revela integralmente.
    Situados próximos ao sul da nova área destinada à desapropriação pela Infraero e o prefeito da cidade, Sr. Hélio de Oliveira Santos, encontram-se bairros que deverão ser completa ou parcialmente alienados. A Presidente da Associação de Amigos do Bairro dessa área, a Sra. Dinorá Pires (Foto abaixo) - que tem sob sua assistência os bairros Chácaras Pouso Alegre, Chácaras Vista Alegre, Parque Internacional de Viracopos, Bairro Dois Riachos e Parque Central de Viracopos -, explica que há nessa extensão territorial plantações de tomate, café, hortaliças variadas, criação de gado. Essa comunidade tem participação agrícola direta com o CEASA (Centrais de Abastecimento de Campinas S.A.) e pequenos mercados. Afirma que se trata de um lugar calmo e tranqüilo para morar e o rural fica próximo da cidade de Campinas, cerca de 20 km do centro, e afirma também que um outro lugar não representaria a mesma coisa para todas aquelas pessoas. Esclarece-nos a Sra. Dinorá Pires: - “A gente tem uma comunidade aqui. A nossa associação faz reuniões constantes com os moradores, cuida de seus interesses como saúde, educação, vida social, faz discussões com os moradores sobre todos os assuntos”.
    E prossegue dizendo que nenhum valor que fosse estipulado pelas autoridades pagaria o sentimento que os habitantes têm pelo lugar. São todos loteamentos registrados em cartório. E, ademais, acrescenta:
      - A vida aqui não é só de cultivo agrícola, há a preocupação com o bem-estar de todos. Temos duas igrejas no local, uma de orientação protestante, Congregação Cristo no Brasil, e outra católica, Paróquia São Pedro Apóstolo. Temos também uma associação de cavaleiros que promove festas.
    Em sua manifestação de repúdio à desapropriação diz:
      - As autoridades não estão se importando com os nossos sentimentos, com a saúde da gente. A questão deles é econômica e o que essa obra vai render para eles. Eles pensam em poder, Campinas vai ficar poderosa, mas nosso bem-estar não os preocupa. Na divisa de Campinas com Indaiatuba há vários mananciais. Rio Mirim, por exemplo, temos várias minas que brotam dele e tememos pelo que a Infraero pretende fazer ali.
      O Governo fala que precisa criar infra-estruturas para a população e, de repente, ele está é tirando a infra-estrutura que nós temos aqui, e que é também o nosso sonho, o nosso prazer de estar neste lugar. Quando a gente tem esse sonho na mão, o dinheiro para eles fala mais alto, a política fala mais alto e isso revolta muito a gente neste país, infelizmente. Eles estão querendo tirar a gente do cantinho que a gente escolheu para viver (abaixo, imagens das chácaras do Bairro Pouso Alegre).
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 Sra. Dinorá Pires, primeira pessoa à direita da foto, juntamente com moradores de chácaras pertencentes à Associação de Amigos de Bairro Pouso Alegre e Vista Alegre. Foto datada de julho de 2003, cedida pela Sra. Dinorá
 Diz a Sra. Dinorá Pires: - “O fantasma da desapropriação ronda os moradores. O que será de nós amanhã? Estamos todos desapropriados, os que estão dentro da área referida e os que não sabem como ficarão suas vidas neste lugar depois. Estamos impedidos de seguir em frente com nossos planos sem saber o futuro que nos aguarda”
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    A vivência tem raízes na terra, que é lugar
de identidade, a menos que, em nome de um processo econômico galopante,
e desmedido, algumas comunidades possam ou devam ser segregadas ou extintas.
A lição do Chefe Seattle que, em 1855, escrevia em carta ao então presidente
dos Estados Unidos da América, Francis Pierce - interessado em comprar
as terras indígenas - sobre a perplexidade e aturdimento de seu povo
ao ter de estabelecer preço para a tepidez daquele chão, para o solo
sagrado de seus antepassados: “somos parte da terra e ela é parte
de nós” (CAMPBELL, 1991, p. 34), é um clamor que ecoa ainda hoje
no nosso cotidiano.
    O autor Hildebert Isnard, em seu livro “O Espaço Geográfico”, diz: “Sobre um espaço descodificado, ou melhor, privado das significações simbólicas que referem o seu modo de vida, o homem já não está mais em equilíbrio com o meio que lhe foi imposto do exterior” (ISNARD, 1982, p. 78). As significações simbólicas de uma comunidade no seu lugar de vida não são passíveis de serem removidas. Campinas já experimentou isso em sua trajetória histórica, por várias vezes, ao demolir, por exemplo, o Theatro Municipal Carlos Gomes em 1965, belíssimo e transbordante de fatos marcantes vividos pela população campineira, para instalar em seu lugar um centro de compras e depois um estacionamento de automóveis.
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 Theatro Municipal Carlos Gomes. Foto sem data. Fonte: UNICAMP
Inaugurado a 10 de setembro de 1930 para ser o substituto do Theatro São Carlos e tornar a cidade de Carlos Gomes a capital da música lírica, o Theatro Municipal de Campinas teve curta trajetória. Foi construído segundo o projeto de "Chiappori & Lanza EngenheirosArchitectos", vencedor de um concurso contendo 18 propostas. Contou com a contribuição do arquiteto paulistano Christiano Stockler das Neves para uma reformulação de seu espaço interno durante a construção. Com a fachada de morfologia clássica e elementos do Art Nouveau, abrigou um interior refinado em sintonia com o estilo da L’École des BeauxArts de Paris. A planta era tradicional, all’ítaliana, um modelo que teve seguidores por cerca de 200 anos. O teatro campineiro construiu a sua história primeiro como Casa de Ópera porém, assim como os seus contemporâneos, abriu espaço para outros eventos alheios à sua vocação original. Em 1959 recebeu a denominação Theatro Municipal Carlos Gomes mas apenas 6 anos restavam-lhe. Literalmente foi tombado em 1965 (MARIALICE FARIA PEDROSO, 2003)
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    Ou, ao demolir a Igreja do Rosário, em 1956, situada no próprio Largo do Rosário, no centro de Campinas, reconstruindo-a num dos bairros da cidade depois.
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 Igreja do Rosário de Campinas demolida em 1956. Fonte: Galeria de Fotos da Prefeitura Municipal de Campinas
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    Houve, nesses casos, profundo esvaziamento histórico
na memória do lugar e decorrente perda de referenciais de identidade
de seus habitantes.
    Estendendo essa noção do coletivo ao individual, verificamos
que habitar um lugar, construir uma moradia, criar laços sociais são
elementos da vida que se associam a significações, a sentidos profundos
no ser humano e que dão às pessoas o sentimento de pertencimento
ao lugar.
    Criar raízes corresponde aos desejos de estabilidade e de
permanência do laço que o indivíduo estabelece com um lugar, pois o
entorno, o ambiente de vivência corresponde mesmo à identidade pessoal
do indivíduo e reúne seu passado familiar e seus projetos de futuro.
    É por essas e outras tantas razões que surge, neste momento,
em Campinas, a preocupação de se refletir com seriedade sobre o significado
da desapropriação, e suas conseqüências, que pode deslanchar a vida
de muitas pessoas e famílias para uma situação extrema, arrastando-as
sobre um fundo de angústia, de perda de identidade e de controle sobre
seu futuro.
    Traremos mais elementos para essa reflexão em nossas próximas
atualizações deste site.
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