Reportagem publicada em 25/08/2008 no Jornal Correio Popular de Campinas (SP)
Estado busca alternativas para água Governo estuda conjunto de medidas para evitar o colapso no abastecimento das três principais regiões metropolitanas
Maria Teresa Costa
DA AGÊNCIA ANHANGÜERA
teresa@rac.com.br
O governo do Estado começou a buscar alternativas para o
abastecimento futuro de uma imensa região formada por três metrópoles
— São Paulo, Campinas e Santos — que está próximo de entrar em colapso.
Um grupo de trabalho foi criado para encontrar soluções para a macrometrópole
que congrega 28 milhões de habitantes, representa 26% do PIB do Brasil,
mas que enfrenta escassez de água, crescimento intenso e desordenado,
desigualdade social e impacto ambiental.
O secretário adjunto da Secretaria de Estado de Saneamento e Energia,
Ricardo Toledo Silva, informou que está em andamento a licitação para
a contratação de empresa que fará os estudos necessários, levando em
conta o aspectos institucional (a qual órgão do governo compete realizar
a obra), a viabilidade econômico/financeira e a viabilidade ambiental
(a execução dependerá, contudo, de posterior Estudo de Impacto Ambiental).
Atualmente, 50% da água produzida na Região Metropolitana de São Paulo
vem das Bacias dos Rio Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ). As bacias
do Alto Tietê e do Piracicaba têm uma das menores disponibilidades hídricas
por pessoa do Brasil.
O maior desafio, explicou Silva, é encontrar novos aproveitamentos,
novas tecnologias para a gestão da demanda, proporcionando, por exemplo
a redução das perdas. Com relação ao órgão do Estado que vai tocar as
obras, ele diz que a responsabilidade pode recair sobre mais de um.
O Grupo de Trabalho está encarregado, por decreto do governador José
Serra (PSDB), de revisar os estudos existentes e propor um conjunto
de alternativas de novos mananciais para o uso múltiplo de recursos
hídricos da macrometrópole de São Paulo, visando a contribuir para o
seu desenvolvimento sustentável, com prioridade para o abastecimento
público, bem como diretrizes para o aproveitamento dos mananciais existentes
e medidas de racionalização do uso da água até o horizonte de 30 (trinta)
anos, considerada a viabilidade técnica, econômico-financeira, institucional
e ambiental de cada uma delas.
“Nas três metrópoles temos carência de recursos hídricos e a racionalização
da água vai permitir atender as necessidades básicas de abastecimento.
O uso econômico da água é essencial, mas não podemos perder de vista
a necessidade de ampliar a oferta ao uso comedido desse recurso”,
disse o secretário adjunto.
O presidente do Consórcio das Bacias PCJ e prefeito de Itatiba, José
Roberto Fumach (PMDB), disse que todas as exigências feitas à Companhia
de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) na outorga do Sistema
Cantareira em 2004 serão cobradas. “Já era para ter apresentado um estudo
completo sobre como aumentar a oferta de água para a região de São Paulo,
mas isso ainda está a caminho. Estamos aguardando com ansiedade o estudo
que o governo vai desenvolver”, afirmou Fumach.
Barra Bonita
Ele lembrou que as Bacias PCJ não têm mais água para exportar e brevemente
a região terá que importar água de outras bacias. “Mas São Paulo precisa
encontrar alternativas para suprir os 31 metros cúbicos por segundo
de água que retira do Sistema Cantareira. Uma alternativa é usar as
águas do Rio Tietê, fazendo a captação em Barra Bonita, onde a água
do rio está em boas condições. Mas isso vai significar construir cerca
de 300 quilômetros de adutora para levar essa água até São Paulo. Quanto
isso vai custar? São necessárias alternativas urgentes”, afirmou.
SAIBA MAIS
O Cantareira é um dos maiores sistemas produtores de água do mundo.
Seus represamentos estão situados em diferentes níveis e são interligados
de tal maneira que, desde o Jaguari e o Jacareí, as águas passam, por
gravidade, pelas represas do Cachoeira, Atibainha e Juqueri, e chegam
à Estação Elevatória de Santa Inês, onde todo o volume produzido é bombeado
para a represa de Águas Claras, construída no alto da Serra da Cantareira.
As nascentes do Rio Jaguari estão localizadas no Estado de Minas Gerais
nos municípios de Camanducaia, Extrema, Itapeva e Toledo. Em Extrema,
o Rio Jaguari recebe um afluente importante, o Rio Camanducaia Mineiro.
Alguns quilômetros abaixo, já em território paulista, o Rio Jaguari
é represado fazendo parte do chamado Sistema Cantareira, construído
para permitir a reversão de água para a bacia do Alto Tietê, como reforço
ao abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP).
Pela junção dos rios Jaguari e Atibaia nasce o Rio Piracicaba no município
de Americana, seguindo depois até o município de Barra Bonita, onde
ocorre sua foz junto ao Tietê. (...)
Refletindo sobre a notícia
Se o abastecimento futuro da imensa região formada pelas três grandes
metrópoles, São Paulo, Campinas e Santos, conforme vemos na reportagem
acima, está próximo de entrar em colapso, podemos perguntar como as
autoridades envolvidas no projeto de ampliação do aeroporto de Viracopos
prosseguem em seus objetivos sem apresentar à população campineira,
também, os seus projetos de enquadramento do megaprojeto aeroportuário
nessa preocupante situação de escassez de água?
Podemos perceber uma contradição gritante entre nós quando somos alertados
pelo Governo Estadual da necessidade de revisar estudos, com urgência,
e constituir um Grupo de Trabalho encarregado de apresentar propostas
alternativas para o abastecimento de água da macrometrópole de São Paulo,
de que fazemos parte, com prioridade para o abastecimento público, aproveitamento
de nossos mananciais e a racionalização do uso da água até o horizonte
de 30 (trinta anos) e, ao lado dessa grave situação, vermos surgir um
gigantesco projeto - que abrange inclusive o aeroporto-indústria - de
mega-ampliação aeroportuária em Campinas, sem que nos sejam apresentados
os devidos estudos relativos à fonte e ao volume do uso de água que
esse megaprojeto demandará.
Devemos nos lembrar de que 95% da população de Campinas é abastecida
pelo Rio Atibaia e os outros 5% recebem água do Rio Capivari; esses
dois rios integram a Bacia dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ),
que, como nos afirma o Presidente do Consórcio dessas Bacias, Sr. José
Roberto Fumach, não têm mais água para exportar e brevemente a região
terá que importar água de outras bacias.
Se não temos ainda conseguido resolver de que forma, no nível atual
de consumo da água disponível para a população, para a indústria e para
agricultura, solucionaremos o grave problema já presente da escassez
de água, e, sabedores de que a racionalização do uso da mesma é o passo
iminente a se tomar, conforme vemos na reportagem acima, como pensarmos
a mega-ampliação de Viracopos diante de tamanha inquietação e falta
de informação segura e solidamente embasada em estudos adequados? E
apresentada à população de Campinas?
Para cada item que estamos tomando como ponto de reflexão e análise
neste site, perguntas não devidamente respondidas vão surgindo, e se
sobrepondo umas às outras, aumentando e aprofundando cada vez mais a
nossa inquietação. Todos almejamos o progresso, mas, como temos acompanhado
em outros lugares, em nosso país e em todo o Planeta, almejamos o progresso
que não nos mergulhe no caos das questões e dos problemas não pensados
e avaliados devidamente antes da implantação dos seus respectivos projetos
e planejamentos.
Traremos mais dados a respeito deste tema brevemente.
|